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Seu “Maroto” e o aranzel sobre a morte

​Sentado na cadeira de Seu Porfírio, parceiro de baralho, de prosa e vizinho, Juvêncio lamenta a vida:

 

– Eu já estou morto! Não sei por que a morte não me leva logo.

 

Ultimamente esse tem sido o seu lengalenga, implorar à morte pelo fim.

 

Por que um homem desejaria isso?

 

Seu Maroto está com 80 e tantos anos. É pai de seis filhos, quatro homens e duas mulheres, e avô de seis netos. Foi vereador. É um dos comerciantes mais antigos da cidade. E, apesar da idade avançada, é um homem que esbanja saúde, é trabalhador e ativo.

 

Faz “fezinha” na lotérica pra Dione, sua filha. Ele também arrisca a sorte – tem muitos projetos em mente. Atende aos pedidos de Dona Euza, sua esposa, nas necessidades e nas tarefas da casa. Perambula pelas ruas. Joga baralho e conversa fora quase todas as noites. Ainda abre e cuida do seu armazém, que mantém características das velhas e tradicionais mercearias. Às vezes, como os pensadores, prefere a solidão – seja na poltrona de sua casa ou no banco ao lado do Teatro Raul Coelho. Mas tem uma coisa, talvez a que mais gostasse de fazer, que ele não está mais “podendo” realizar: cuidar da roça e zelar dos seus “bichos”. Essa era uma atividade diária e ele sempre fazia o percurso, cerca de 6 km entre ida e volta até o sítio, na maioria das vezes, de bicicleta.

 

Depois de um acidente, onde um carro o atropelou pelo caminho, a preocupação tem sido redobrada. Com isso o trajeto diário foi interrompido por receio à nova “negligência” alheia. Isso o entristeceu. Tirá-lo dessa rotina o deixou desmotivado e a ociosidade tem provocado situações inesperadas. Esses dias, seu Maroto – inquieto e veemente – queria subir na casa para consertar o telhado.

 

Ainda assim, pelo o que conta, sua maior tristeza foi perder “parcialmente” a audição, o que tem dificultado as conversações em casa e com os amigos e sempre tem causado esse plangor e “desejo doido” pela morte. E segue lastimando:

 

– Tô surdo! Pra mim acabou!

 

Juvêncio é um homem forte e sábio, por isso a morte ignora seu rogo birrento. Ele agora nos escuta com olhos. Basta observá-lo para dizer-lhe algo e ele tão logo retribuirá a atenção, seja com gestos ou expressões. E o seu olhar apontado para diante nós, nos diz muito mais do que a boca e suas próprias palavras seriam capazes de exprimir.

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