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Luciano Lugori e os loucos de Curaçá

Luciano Lugori, jovem professor, pesquisador e jornalista curaçaense nascido na primeira metade da década de 1980, há algum tempo escreveu um livro monumental sobre os loucos de Curaçá.

Ilustres loucos, admiráveis loucos, sapientes loucos!

Ao ler os originais de Enquanto Enlouqueço tive a impressão de que estava diante de um minucioso e alentado ensaio sobre a loucura. O assunto fascina pela incursão no recôndito da fragilidade humana e, mais do que isto, dá a bitola da complexa dificuldade que a sociedade tem de compreender o mundo e organizar o caos através de ideias e conceitos.

Contudo, o que mais fascina na obra é o empenho do autor sobre o assunto, que escapa à vulgaridade do cotidiano e se agiganta diante do interesse de especialistas.

Enquanto enlouqueço. Foto: Yuri Kauan Lugori

Bergson, filósofo independente, falava de uma “loucura normal”. Neste ponto, o autor parece aproximar-se da intuição de que, toda vez que a razão se distancia da realidade, o conhecimento se empobrece. Ele mergulhou na realidade, sem abdicar do conhecimento discursivo e necessário.

O livro começa por um oportuno esquadrinhamento sobre a loucura, fundamentando-a na opinião de estudiosos universalmente respeitáveis, examina o âmago das dúvidas e, por último, faz um apanhado empírico sobre o mundo dos loucos de Curaçá.

O cerne do livro parece ser mais a perquirição do que seja a loucura do que, propriamente, a história dos loucos curaçaenses, o que em nada arranha o objetivo colimado pelo autor. Ao contrário, enriquece-o. Reside aí sua grande importância, porque é abrangente, filosófico, investigativo, questionador.

A loucura não deixa de ser uma avassaladora forma de viver em solidão. Intenso observador, o autor procurou construir este monumento aos loucos. O estar-só dos loucos, o isolamento que eles experimentam é o prelúdio da solidão. E aí reside a violência que a sociedade dita normal pratica sobre esses loucos, nem sempre loucos, relegando-os, repelindo-os, marginalizando-os.

Embora apoucado, tendo em vista a importância da obra, não devo ir além dos limites estruturais do epílogo que o autor me concedeu a honra de fazer. Epilogar significa recapitular, resumir. Todavia, confesso que diante de um livro tão monumental, tive dificuldade de fazê-lo.

O autor vai longe, ao abeberar-se nos conceitos de Foucault e Erasmo de Rotterdam, dentre outros, razoavelmente aceitos até hoje. Em todas as referências, fica claro o papel da sociedade relativamente à loucura: uma sepulcral indiferença.

O livro faz um paralelismo entre “loucos” e “doidos”, palavras fundamentais para a compreensão do texto. Parece inquestionável a diferença entre eles. Os exemplos contemplados pelo autor são claros porque, ademais, a loucura está impregnada na sociedade, clandestinamente. A doideira é visível.

Quanto aos perfis jornalísticos sobre a loucura do universo de Curaçá, o trabalho do autor é completo. As pesquisas se debruçaram com afinco sobre nossos loucos e doidos e ainda se enriqueceram com abalizadas entrevistas acostadas ao texto.

No capítulo “O enlouquecimento” está, em resumo, a grandeza da obra. O autor se despe de toda e qualquer vaidade e mortifica-se diante da realidade, para tentar entender a loucura. O ponto alto deste Enquanto Enlouqueço é exatamente a humildade do autor.

Livro altamente recomendável. Vale a pena ler, conhecer, refletir.

Por Walter Araújo 

[email protected]

Postado originalmente em Blog de Walter.

 

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