E depois, o que seremos?
Um quadro pendurado na parede empoeirado pelo tempo?
Uma velha lembrança espatifada e já quase apagada da memória?
Uma fotografia viva tirada nos becos da existência e guardada num álbum qualquer ou perdida dentro dum livro entre outros livros na estante de um sebo sem fazer o menor rebuliço?
Um santinho com um retrato fúnebre, que julgam ser a nossa imagem preferida, com nome, frase de efeito, geralmente bíblica, com data de nascimento e morte e entregue dias após como uma recordação do luto?
Uma cruz enferrujada, abandonada e misturada com outras cruzes no chão do cemitério?
Um epitáfio com uma homenagem póstuma des(botado) e com letras caídas por sobre nosso túmulo?
Uma vela acesa e umas flores colocadas na nossa sepultura no Dia de Finados para celebrar não sei mais o quê?
Um buraco revirado pelo coveiro para enterrar outro corpo morto que chega também querendo alguns palmos de profundidade na moradia eterna?
Ou um amontoado de ossos quebrados, já não identificados e “indigeríveis” até mesmo pela atroz saprofagia bacteriana?
O que seremos depois, afinal?
Depois do pranto na hora da despedida
Depois do preito feito ao pé do caixão
Depois da bela música cantada pelo coral da igreja
Depois das exéquias, do sermão do padre, da oração do pastor, da encomendação do corpo, depois do encantamento, não importa a religião e nem os eufemismos
Depois das feridas serem cicatrizadas
Depois, no dia seguinte, um ano, dois anos, depois que vários anos se passarem e virarem páginas esquecidas no opúsculo da vida
Depois de nós, depois dos nossos filhos, dos nossos netos, da nossa geração mais longínqua e perdida entre os séculos
Depois que colocaram outro no nosso lugar, no trabalho que tanto tínhamos apreço, na casa que construímos e que tanto gostávamos de fazer confraternizações?
Depois de tudo, quando tudo acabar, o que seremos, afinal, para quem fica e para vida que será prosseguida do mesmo jeito?
E depois do depois do depois?
Uma coisa é certa: somos apenas passageiros e passaremos ligeiros, muitas vezes, desatentos com o que é o verdadeiro sentido da vida.
O caminho é só de ida, não tem volta, sempre foi assim, portanto, a vida é o agora, ela está acontecendo neste exato momento, no tempo presente, como um presente divino, enigmático e sagrado. Aproveitem-na!
Pois, depois disso, depois da morte, se tivermos sorte, ainda seremos uma pequena chama de saudade dentro do coração de algumas poucas pessoas ou uma biografia com uma história mal contada por quem sequer nos conhecia de verdade e não entendia nossos sentimentos.



