De certo mesmo, somente a morte, que é forte, voraz e que nos arrasta um pouco todos os dias com todos os seus enigmas, como um bloco de carnaval, que também tem seus mistérios.
De tão decidida que é, nem mesmo o sábio e seu discurso mais diserto, tampouco a pantomima do mais esperto dos Pierrots, seriam capazes de entreter a morte, mudando, assim, a nossa sina/rota na avenida da vida, deixando-nos desfilar à mercê da própria sorte.
Não sabemos com qual disfarce a morte virá, se ela estará entre os foliões pândegos ou transeuntes malfazejos. Se fingida de Colombina e de Arlequim, num drama teatral; de careta ou ideada numa desculpa esfarrapada de uma pessoa medíocre, desmascarada e descarada, na trama duma tragédia real.
De fato é um fado, dolente e triste como canção, místico e divino enquanto destino, mas sem o encanto e a beleza das boas folias, sem o colorido das fantasias das virgens, sem o brilho da purpurina carnavalesca, sem banho de cheiro tomado nas ruas, pois, muitas vezes, a alegria de fevereiro é desnudada e perfurada pela afiada perversidade humana.
Morre quem vai, mas também morre um pouco quem fica. Morre triturado pela nostalgia, pela lembrança de quem partiu. Morre de revolta pela forma que a pessoa se foi. Agora no peito, sufoco, dor, aperto firme da tristeza.
Deserto na multidão, em vez de água, sangue, ao invés de vida, morte. Decerto um desalento para os tempos pósteros de carnaval, mais um vazio que preencherá o bloco da nossa saudade.
Perdemos hoje duas pessoas icônicas, presentes no cotidiano curaçaense, que viviam a desimportância, cada um do seu jeito, subindo e descendo ruas, conversando com um e com outro: Joanita, alguns a chamavam de Joaninha, sempre perto/cuidando do(s) filho(s), uma mulher de andar e de fala ligeira, uma guerreira; e Juscelino, o famoso Goela, grande vascaíno, fazedor de jogo do bicho, um homem simples no sentido mais literal da palavra, um grande amigo.
Lugori
(Agoniado como Joaninha, vascaíno como Goela, desimportante como os dois)
Deixo aqui minhas condolências às famílias por essas duas grandes e repentinas perdas. Que Alhah os receba de braços abraços.
#lucianolugori



