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A Seu Ioiô de Hermógenes

“Todos nós temos o dia de partir”, sussurrou Seu Durval, com uma dor estampada no semblante, diante do caixão que abrigava seu irmão antes do leito derradeiro.

Martinho Nunes da Paixão, Seu Ioiô de “Hermógenes” – um eco paterno que o acompanhou por toda a senda –, ou simplesmente Seu Ioiô, nos deixou às vésperas de sua nonagésima primeira primavera, que se desabrocharia em 29 de julho.

A morte o colheu no outono, em pleno junho, talvez o mês mais festivo no Nordeste, quando Curaçá já se prepara para Festa dos Vaqueiros. E ser vaqueiro era uma “paixão” e sua maior “diversão”.

Seu Ioiô, que sentiu o peso de tantos invernos e o calor de tantos verões nas estações da vida, embarcou hoje no trem da partida, para a viagem sem retorno, rumo aos campos celestiais na vastidão da eternidade.

Mais que um morador da Rua Hermes (e da Fazenda Uberlândia), Seu Ioiô era uma “paisagem humana”, um convite à contemplação, e um bom “flâneur”, que observa, admira e saboreia a vida comum, enxergaria nele além do óbvio, além daquilo que os olhos podem ver: um quadro vivo, onde passado, presente e futuro se entrelaçavam num único olhar. Uma fotografia transeunte do/no tempo, um caminhante incansável, um bom homem, um verdadeiro “boa-praça”.

Seu Ioiô na Fazenda Saudade na FDV 2024. Foto: Lugori

Fica agora a saudade que aperta o peito, mas também as lições e a sabedoria de quem soube domar as intempéries da vida, sobretudo na aridez da caatinga. E, ao final da jornada, como o próprio me disse, a gratidão e a fé em Deus, que lhe deu a força para cumprir a sua missão na lida diária e o prazer incontido para fazer e ser o que tanto amava: criar e ser vaqueiro. E vaqueiro de alma não morre. Afinal, sua “alma é de couro”, portanto, indomável, intangível ao tempo, eterna.

À Yarya, Ézio, Auzeniry (Lili), Dona Mariete e a toda família, como amigo e filho da Rua Hermes e como um amante da palavra que escreve para “posteridade”, deixo aqui as minhas mais sentidas condolências por esta perda imensurável.

Vá em paz, Seu Ioiô! Hoje o seu corpo se despede deste plano, mas o seu exemplo e o seu legado florescerão para sempre.

Lugori
(apenas um desimportante e um guardador de memórias)

Vídeo gravado em fevereiro de 2024.

 

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